Textos inacabados, devaneios exagerados, palavras malditas, frases benditas e tudo que mais importar.
sábado, 2 de agosto de 2008
Desabafo
Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até chegar e aí ver o garçom colocar uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido - uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção. Aí a vontade que dá é de passar numa loja, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa, repetindo quantas vezes a gente quiser, sem pensar em boas maneiras ou moderação. O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano. A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco. Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons. Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a maioria das mulheres continua com pavor de ser "fácil"). Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta. Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai. Tantos deveres, tanta preocupação em "acertar", tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação... Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão. Às vezes, dá vontade de fazer tudo errado - deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Nós, não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado. Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora. Por isso, garçom, por favor, deixe meu chuveiro aberto, me traga cinco bolas de sorvete de coco, um sofá pra eu ver 10 episódios do "Sex and the city", uma caixa de trufas bem macias...não necessariamente nessa ordem. Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.
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